Publicado por: wagnermartins | Março 13, 2008

A arte da comunhão

Mateus 26:26-29

Aproveitarei esse momento para falar em comunhão. Por que não é rara a exibição dos nossos dotes individuais, que ofuscam o brilho da comunhão.

Vivemos num enorme paradoxo, quando chamamos aquilo onde vivemos de comunidade, mas mostramos de forma gritante nosso lado individual, mesquinho. Isso é claramente mostrado quando nos reunimos para conversar, tendemos deixar o foco em nossas diferenças, preferências e raramente falamos daquilo que nos une. Esquecemos da frase do poeta dizendo que “aquilo que nos une é maior do que aquilo que nos separa”.

O que dizer de nós, que mesmo nos cultos nos deixamos levar por nossos gostos, nossas preferências? E dessa forma alargamos nosso espaço limitando o espaço do outro?

Por essa razão escolhi o tema: “A arte da comunhão”. Por entender as dificuldades de uma união, mas também por acreditar na urgência desse ato. O vocábulo arte é usado aqui para revelar tanto a beleza quanto a dificuldade, e para mostrar também que comunhão não é algo que se nasce sabendo, mais uma arte de se aprende a viver.

Ter comunhão é a nossa atitude corajosa em assumir e manifestar que existe algo em comum entre mim e o outro. Por falta dessa atitude corajosa, muitos lêem a bíblia de forma sempre particular, buscam apenas as promessas do Senhor para sua vida, individualmente, o discurso é sempre: “Deus tem uma promessa para mim”.

Mas a bíblia que é o livro “apto para ensinar, para corrigir, para instruir em justiça. Para que o homem de Deus, seja perfeito e perfeitamente instruído para toda boa obra” (2Tm 3:16-17), nos revela os caminhos para a comunhão. E o exemplo mostrado por Jesus, o Nosso Senhor, abre as portas do nosso coração e as janelas da nossa mente para vivermos a plenitude da união.

Pensemos por um instante nessas declarações do teólogo Paul Tillich em um dos seus sermões:

·         “As barreiras da distância, do tempo e do espaço, foram removidas pelo progresso técnico; mas as paredes de hostilidade entre coração e coração se tornaram incrivelmente mais fortes.”

Conseguimos captar a grandiosidade dessas duas afirmações? Pois bem, com o avanço da tecnologia, podemos nos comunicar com nossos amigos no Japão em tempo real. Podemos ver nossos amigos do outro lado do mundo através de uma câmera. A distância e o tempo que uma carta tinha que percorrer para chegar ao destinatário, fora encurtado ou melhor dizendo, anulado com o surgimento do e-mail. Temos agora o celular, onde as pessoas podem entrar em contato conosco em qualquer lugar a qualquer momento. Tudo isso aproxima as pessoas, aproxima os mundos. Mas Tillich não deixa de alertar: “ As paredes da hostilidade entre os corações se tornaram cada vez mais forte”. Cada vez mais, o homem esquece do outro, o culto a si cresce cada dia mais, ganhando cada vez mais força. O espaço ao sol é buscado cada vez mais, sem levar em conta o espaço do outro. Por mais que avance o tempo, o homem continua primitivo. Ou será que a hostilidade é fruto que amadurece com a modernidade?

De qualquer forma, a mensagem cristã é mensagem de aproximação, “Deus nos reconciliou consigo mesmo, por Jesus Cristo… e nos deu o ministério da reconciliação…rogamos-vos pois que vos reconcilieis com Deus.” (2 Co 5:18,20). A mensagem cristã não é mensagem de individualidade, ainda que a salvação seja pessoal, o caminho da salvação é percorrido em comunhão, na partilha. Por essa razão foi escolhido o texto de Mateus 26 para essa reflexão, pois é o momento da partilha, a ultima reunião de Cristo com seus discípulos e Ele deixa o grande recado do evangelho.

O corpo e o sangue para todos

“Jesus tomou o pão, e abençoando-o, o partiu e deu aos seus discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice e dando graças, deu-lho dizendo:Bebei dele todos. Porque isto é o meu sangue…que é derramado por muitos para remissão dos pecados.”

Quando a individualidade é grande ao ponto de ferir uma comunhão, estamos vivendo o lado contrário do pensamento de Jesus. O eu nunca é maior do que o nós. É preciso que notemos que nossa vida é vida de união, nem eu somente, nem você somente temos um lugar no reino de Deus, mais todos nós. A comunidade dos crentes, sem distinção é participante do corpo de Cristo. Acerca disso devemos nos lembrar do seguinte fato: Eu e você, enquanto seres individuais não somos o corpo de Cristo. Enquanto individuais somos Filhos de Deus. Nos tornamos corpo de Cristo quando estamos em comunhão com os outros. O corpo de Cristo é a reunião dos Filhos de Deus. Isso é claro num dos textos mais famosos da bíblia e mais citados com o seu caráter individual, vejamos: “Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Cristo nos purifica de todo pecado” (1 Jo 1:7). Não é raro eu ouvir um trecho desse versículo na boca de pessoas rancorosas, pessoas individualistas, mesquinhas. Estufam o peito e dizem: “Mais o sangue de Cristo me purifica de todo pecado…”. Ora, o pecado é separação de Deus. Pecado é aquilo que separa, Diabo é o nome dado aquilo que é a causa da separação, logicamente que a separação entre as pessoas se constitui pecado, e o pecado não suporta a luz, logo se pecamos (separados) não andamos na luz como ele está, e se não estamos na luz não temos comunhão e se não temos comunhão o sangue de Cristo não nos purifica. Conforme o texto de 2Co 5: 18-20, Cristo é a ponte de união com Deus, o sangue de Cristo nos purifica causando união.

Por isso a comunhão é uma arte. Uma arte ensinada pelo Espírito de Deus. E essa arte é aprendida e aperfeiçoada na vivência. Aprendendo dia após dia a amar uns aos outros, a orar uns pelos outros, a confessar as culpas uns aos outros, a perdoar uns aos outros, enfim a realizar todo feito que cause aproximação e não distanciamento.

Vida cristã é vida de união. Caminhos juntos, na esperança de que vamos juntos habitar com Cristo. Quando Cristo terminou de repartir o pão e o vinho como sinal de seu corpo e sangue ele terminou dizendo: “E digo-vos que, desde agora, não beberei deste fruto da vide até aquele dia em que eu beba de novo convosco no Reino do meu Pai.” Juntos formamos o corpo de Cristo que habitará para sempre no Reino de Deus. O reino de Deus é reino de união, sendo assim é importante aprender a arte da comunhão, praticar aqui, porque no Reino de Deus a arte deverá estar aperfeiçoada. Para a glória do Nosso Pai.

 


Respostas

  1. Todos os dias é dia de ser grato, de estar apto a reconhecer nobreza e fraquezas. Comunhão é um cordão umbilical transcedente e que é partido não só na morte. Naqueles dias de cão, dias difíceis, nos matamos aos poucos em nome do egísmo, o individulismo que provisóriamente nos protege da falsidade alheia. Mas é simples estar imune a isso, é algo de um gesto muito mais simples que engatinhar, é só redimir-se a si próprio, e silenciar a si mesmo. Todos os dias isso é possível, e magnífico!

  2. Nega,

    Para de comentar no meu blog. Seus comentários são melhores que meus textos. (risos).

    Amo-te


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